O apagão elétrico tirou o foco da escuridão política que se espalha na coalizão demotucana. Breu nº 1: a economia cresce à velocidade de 8% a 10% ao ano neste final de 2009; Breu nº 2: a aprovação ao Presidente Lula sobe de 65% para 68% ; Breu nº 3: Dilma cresce na pesquisa Vox Populi e soma 19% de intenções de voto; Serra ainda lidera mas perde 4 pontos. Breu nº 4: o arestoso governador de SP perde, sobretudo, espaço no PSDB nacional: "Aécio é mais amplo politicamente que o governador José Serra.” A avaliação é do presidente do partido, Sergio Guerra, na UOL.
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Ready-made
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
Índios
Índios são estrangeiros absolutos vivendo num solo que cercamos e dissemos ser brasileiro. Eles não escolheram entrar no Brasil como imigrantes, estavam aqui antes de haver essas leis e constituição. Isso significa que impor as leis do Brasil a eles é impor uma conquista militar - uma que acontece no instante em que você impõe essas leis.Não sou a favor do argumento "preservar a cultura indígena". A cultura ucraniana, curda ou coreana de 100 anos atrás é completamente outra que a de hoje e ainda assim eles se reconhecem como ucranianos, curdos, coreanos. Cultura simplesmente é uma coisa forte demais para que se concretizem as fantasias dos que acham que o capitalismo poderia transformar o mundo num grande shopping center único - essas pessoas costumam pensar demais em coisas únicas.
São os índios que devem decidir se e o que querem preservar ou não em sua cultura. Sociedade não é museu, cultura não é teatrinho para alegrar quem quer realizar suas fantasias de inocência natural e socialismo primitivo. Se o contato é inevitável, os antropólogos tem o importante trabalho de catalogar tudo o que puderem antes que seja inevitavelmente modificado, mas decidir pelos índios em mantê-los isolados é fazer exatamente isso: decidir pelos índios. Colocá-los na posição de criancinhas, inocentes, bons-selvagens.
No entanto sou a favor de, uma vez que demos terras aos índios, tenham total autonomia. Inclusive o poder de secessão, fundarem seu próprio país e terem sua própria força militar, se assim acharem adequado. E, sim, fazerem cassinos, minerarem ouro, venderem madeira, terem aviões e camionetes.
Existe essa conversa do "índio safado", de dizer que, quando os índios enriquecem ou passam a ter bens, é sinal que estão aculturados e devem ser forçados a seguir as leis comuns. Se avião e camionete fizessem cultura, os talebãs estariam assistindo Baywatch, assando costela de porco e bebendo cerveja na praia. Os índios passam a ser brasileiros quando disserem que são - antes disso, quem entra numa reserva não está mais sob jurisdição da lei brasileira que quem entra no Paraguai. Isso não dá aos índios o direito de assaltar um banco em São Paulo - então, eles é que estariam em terra estrangeira.
Para defender o direito dos índios não seguirem as leis brasileiras, não é preciso ter o relativismo cultural do deslumbrado do primeiro ano de humanas (palavra que faz falta ao português: sophomore). Não estou dizendo que infanticídio é a mesma coisa que fazer o teste de fenilcetonúria. Estou dizendo que nao podemos descer o porrete nos índios por fazerem o que sempre fizeram. Que os índios são mais sortudos que eu e você: têm o direito a não ser brasileiros.
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
Pânico moral

A revista Reason compilou as capas mais histéricas da revista Time desde 1972, com várias previsões para a queda da Civilização.
- O Revival do Oculto (1972)
- A Praga Pornô (1976)
- A Maldição Populacional (1984)
- Drogas: O Inimigo Interior (1986)
- Palavrões (1990)
- Filhos do Crack (1991)
- Cyberpornografia (1995)
- Pokémon (1999)
- O Efeito Columbine (2001)
- Obesidade (2004)
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
Re-post: Momento Zen
Em homemagem ao Dia do Portunhol, trago de volta um clássico - eu acho, minha mãe acha - de janeiro de 2005.A Not Tupy Broadcasting entrevistou Alberto Fish Patorozú (foto), diretor de ética animal do Frigorífico y Matodoro Carrasco S/A. Ele nos garantiu que, graças ao Mercosur (sic), seu português estava casi perfecho (sicsic) - mas parece que ele apenas conseguiu esquecer seu espanhol.
NT: Sua empresa está na lista negra do PETA como um dos maiores inimigos do tratamento ético com animais. Como vocês lidam com essas críticas?
AFP: Eso son todo calúmnias inútiles. Ninguna otra empresa oferece um tratamento tan exclusivo como nuestro. Inclusive convidamos a los representantes del PETA a una conversita en nuestra sala VIP. Pero parece que el roído de las motossierras dejó ellos un poquito estresados. Nin mismo aceptaron nuestro carpaccio caliente, tirado en la hora, los maleducados!
NT: Parece que a trégua não durou muito, não é? Houve outro incidente com o PETA...
AFP: ...en octubre pasado, si! Ellos tentáron libertar uns porquitos in nuestro galpón de abate. Entonces soltamos los porquitos, como quiseron, carajo! Infelizmente, los cuerpos no puderon ser diferenciados de otros restos en el soalho e acabaron sendo enviados a la fábrica de ración de perro. En respecho a las famílias de los muertos, mandamos un pacotito de Bonzo a cada una.
NT: Falando em reciclagem, as ONGs também acusam sua indústria de alimentar bovinos com esses restos, favorecendo a síndrome da vaca louca.
AFP: Vaca loca, vaca loca! Puta madre, nuestras vacas nin tienen cérebro, como puden ser locas?! No lo sé si ustéd sabe, pero en la Baja Ingutchétchia hay una gran demanda por cérebros de vitela. Entonces extirpamos la major parte del tejido cerebral, dejando apenas las partes necessárias a la suvrivéncia. Como puden esos estúpidos se quejaren del sufrimento, si nuestras vaquitas nin son mas capazes de sentir nada?
NT: E quanto à alimentação?
AFP: Eso tambén non é ninguno problema. Nuestras vaquitas son alimentadas por el processo muy hi-tech de alimentación intravenal. No lo sé si ustéd sabe, pero en la Baja Ingutchétchia hay una gran demanda por intenstinos de vitela. Asi, extirpamos al intestino de las vaquititas logo que nascien.
NT: Mas será que com a parte restante do cérebro as vacas não podem sofrer estresse de serem criadas assim, o tempo todo com tubos nas veias?
AFP: Eso yo no sé, pero creo que no, ya que ellas non puden nin mesmo veir nada! No lo sé se usted sabe, pero en la Baja Ingutchétchia...
NT: Já sei, gostam de 'ojitos' de vitela... Pelo visto vocês realmente têm um processo bastante civilizado e 'muy hi-tech'.
APP: Si, pero yo ainda no he dicho de la más avanzada y muy hi-tech invención de nuestros zootecnólogos. É la matanza sin muerte, também llamada ‘non-lethal shredding’ en los EEUU.
NT: ???
AFP: La matanza sin muerte consiste en lo seguiente: nosotros abolimos la fasis de la matanza. Nuestras vaquititas simplesmente non son muertas! Pasamos derecho a la fasis de la carnificación - o sea, de vaca a bife de chorizo sin muerte! Y sin trauma de consciéncia. Ahora, mismo los vegetarianos pueden consumir nuestros productos sin ninguna culpa! Hasta mismo un defensor de los animales dos más inveterados, digamos, por exemplo, Adolf Hitler, aprobaria a un processo assim!
NT: Genial, señor Fish, genial! Er... muito obrigado pela entrevista!
AFP: De nada! Acepta un carpaccio?
NT: Si, como no!...
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
Eu, direitista
Quando eu comecei este blog, dizer-se "de direita" era equivalente a admitir que você vive de capturar cachorros de rua e levá-los até a fábrica de cola. O governo Lula, ou melhor, a corrupção do governo Lula mudou isso um pouco. Mas ainda estamos longe do dia em que a discordância será considerada parte normal e desejável da vida intelectual, que deixemos de ouvir o brado do coronelismo acadêmico, o "quem é você para falar mal de Fulano Medalhão?".
As pessoas de esquerda acreditam estar indo contra o chavão, o pensamento banal, trivial, vulgar. De fato, o cidadão médio e desinstruído não é de esquerda, é conservador de um jeito bastante tacanho e irracional. O que, digam o que digam, não é a única maneira de não se ser de esquerda.
Ser esquerdista deixa de ser original quando você observa o meio ao qual você pertence. Então o esquerdismo pode ser um indício conformismo. Você pode ter deixado para trás as coisas que seus pais acreditavam, é verdade, mas tomou como hóstia e vomitou letra a letra, acriticamente, aquilo que seus professores lhe ensinaram. Reproduziu, como disse... Althusser (?), as "condições ideológicas" da geração anterior.
Agora, eu não me tornei "de direita" de um gesto deliberado, sair acreditando no contrário do que diziam os professores . Eu apenas comecei a contestar certas coisas que, se não eram chavões na sociedade como um todo - isso nem existe "sociedade como um todo" -, certamente eram clichês entre jornalistas como eu.
Entre tantas coisas que me afastaram da esquerda, irá soar paradoxal a alguns, uma das maiores delas foi meu desejo por igualdade. O paternalismo comum na esquerda iliberal brasileira trata os pobres como criancinhas - e isso me parece um insulto. Você rebaixar alguém a inimputável, dizer que uma pessoa não é responsável por suas próprias escolhas, isso é torná-la um animal. Ao dizer que você, classe média, pode ser culpado por seus erros e o pobre não é culpado por nada, é um autômato social, extrai-se daí que apenas você é completamente humano.
Seja como for, um dos primeiros eventos na história deste blog foi perceber que eu não era de esquerda. Tenho imenso tédio em comentar a política do Brasil, daqui prefiro falar de cultura. Assim, até o governo Obama, estava meio que na "situação" - eu não encampei Bush, criacionista e religioso, mas era fácil então satirizar os ataques caricatos da esquerda. No entanto, agora, quem verte espuma pela boca aparece do "meu lado".
E isso me leva à questão: "é isso que eu realmente quero?". Não, não é. Todo fervor político me parece desprezível e poucas coisas são piores que o espírito de seita, acreditar que o mundo inteiro está em pecado menos você e seu grupo, e o Apocalipse advirá se todos não se converterem - custe o que custar.
Em outras palavras, já prometi isso um ano atrás, cansei de ser blogueiro de direita. Não mudei de opinião repentinamente em nada, apenas pretendo falar mais dos assuntos em que discordo dos conservadores. Não há mais trégua tática por conta dos inimigos em comum.
As pessoas de esquerda acreditam estar indo contra o chavão, o pensamento banal, trivial, vulgar. De fato, o cidadão médio e desinstruído não é de esquerda, é conservador de um jeito bastante tacanho e irracional. O que, digam o que digam, não é a única maneira de não se ser de esquerda.
Ser esquerdista deixa de ser original quando você observa o meio ao qual você pertence. Então o esquerdismo pode ser um indício conformismo. Você pode ter deixado para trás as coisas que seus pais acreditavam, é verdade, mas tomou como hóstia e vomitou letra a letra, acriticamente, aquilo que seus professores lhe ensinaram. Reproduziu, como disse... Althusser (?), as "condições ideológicas" da geração anterior.
Agora, eu não me tornei "de direita" de um gesto deliberado, sair acreditando no contrário do que diziam os professores . Eu apenas comecei a contestar certas coisas que, se não eram chavões na sociedade como um todo - isso nem existe "sociedade como um todo" -, certamente eram clichês entre jornalistas como eu.
Entre tantas coisas que me afastaram da esquerda, irá soar paradoxal a alguns, uma das maiores delas foi meu desejo por igualdade. O paternalismo comum na esquerda iliberal brasileira trata os pobres como criancinhas - e isso me parece um insulto. Você rebaixar alguém a inimputável, dizer que uma pessoa não é responsável por suas próprias escolhas, isso é torná-la um animal. Ao dizer que você, classe média, pode ser culpado por seus erros e o pobre não é culpado por nada, é um autômato social, extrai-se daí que apenas você é completamente humano.
Seja como for, um dos primeiros eventos na história deste blog foi perceber que eu não era de esquerda. Tenho imenso tédio em comentar a política do Brasil, daqui prefiro falar de cultura. Assim, até o governo Obama, estava meio que na "situação" - eu não encampei Bush, criacionista e religioso, mas era fácil então satirizar os ataques caricatos da esquerda. No entanto, agora, quem verte espuma pela boca aparece do "meu lado".
E isso me leva à questão: "é isso que eu realmente quero?". Não, não é. Todo fervor político me parece desprezível e poucas coisas são piores que o espírito de seita, acreditar que o mundo inteiro está em pecado menos você e seu grupo, e o Apocalipse advirá se todos não se converterem - custe o que custar.
Em outras palavras, já prometi isso um ano atrás, cansei de ser blogueiro de direita. Não mudei de opinião repentinamente em nada, apenas pretendo falar mais dos assuntos em que discordo dos conservadores. Não há mais trégua tática por conta dos inimigos em comum.
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
The thin red line
Está ficando clara aqui a divisão entre conservadores e libertários, não?Vamos avaliar por exemplo um argumento conservador conhecido, aquele contra o casamento gay.
Conservadores são a favor da família nuclear não-estendida como o melhor ambiente para criar filhos. De fato, é bom ter dois ao invés de uma e as tias, é bom ser criado com o pai - mas não é sempre o melhor, porque há pais abusivos, caso em que um divórcio seria recomendável. Mas, via de regra, posso concordar com os conservadores, que os casais saudáveis, não-violentos, deveriam se sacrificar um pouco e aceitar, em prol de seus filhos, que o amor romântico não é eterno - os meus pais fizeram isso, quase todos em sua geração fizeram, ao menos por um tempo. Então concordamos eu e os conservadores: a família nuclear é um bem.
A partir daí eles se declaram contra o casamento gay. Por que? Porque o casamento gay é um concorrente à família nuclear, e de existir faz com que ela perca sua autoridade enquanto monopólio. A família nuclear deixa de ser a única possível aos olhos do estado e (ao menos assim espera o conservador) da sociedade.
Um gay trazer seu parceiro ao hospital e fazer com que ele receba de herança seus bens é um direito individual baseado em sua própria vontade, do que esse indivíduo deseja fazer de si, suas relações e sua propriedade. Porém, em nome do desejo por ambiente cultural saudável, isto é, em nome da coletividade, os conservadores então se tornam perfeitamente capazes de sacrificar o indivíduo. Assim, é o conservadorismo outro tipo de coletivismo - apenas que os conservadores almejam um tipo de uniformidade diferente dos socialistas. Enquanto os socialistas parecem querer o mundo das Cohabs infinitas - Le Corbusier chegou a desenhar isso -, os conservadores querem o subúrbio americano infinito, o nirvana da propaganda de margarina. Em ambas utopias, não há espaço para manchas comportamentais.
Entendo o socialismo como uma volta em U no liberalismo, uma guinada em retorno ao controle absolutista - apenas trocando o benefactor rei por burocratas. De certa forma, há apenas dois partidos políticos na história moderna, os que exergam um bem quando surgem mais opções e aqueles que acreditam que podem controlar o futuro. O partido da liberdade versus o da segurança, otimismo e pessimismo, um que aceita a imperfeição da vida, outro que acredita estar o mundo em profundo pecado, um que acredita que o futuro será melhor, outro que enxerga o Apocalipse ali na esquina.
Afinal de contas, entre se apavorar com pornografia na internet ou transgênicos, os Últimos Dias do Ocidente ou o Aquecimento Global Catastrófico, conservadores e esquerdistas tem alguma em coisa em comum, não?
Vamos lá, sejam bons cristãos, abracem seus irmãos.
terça-feira, 27 de outubro de 2009
Poção mágica de Satã
Para alguns conservadores, a FDA é Deus.A partir do momento em que os burocratas do órgão público americano decretam que uma droga deve ser retirada do mercado, sua Manifestação Celestial faz com que essa substância deixe de integrar a lista das dezenas de alteradores de consciência que os pais de família podem fazer uso todos os dias sem medo de retribuição divina - açúcar, xarope para tosse, café, antiinflamatórios, antihistamínicos, antieméticos e, é claro, álcool. Quando A Palavra da FDA é proferida, uma droga de drogaria vira "Droga", passa para a categoria das Poções Mágicas de Satanás, substâncias milagrosas capazes de transformar um ser humano em zumbi - ou o incrível Hulk - fazendo com que ele perca totalmente sua identidade, consciência e vontade própria - ao menor contato, em qualquer dose.
As drogas são o soro mágico do controle da mente, inventado em 1968 pelos Comunistas-Hippies-Ateus-Satanistas. Uma vez soltas nA Sociedade, nada poderá conter seu irresistível apelo, capaz de destruir a Civilização - afinal, quem é que não sonha em ficar o dia inteiro na cracolândia, pipando feito um ratinho com um eletrodo enfiado no cérebro?
O Estado, ao dar 100 reaus prum miserável, comete uma ofensa contra Deus, condenando uma alma ao pecado capital da preguiça. Porém, cabe ao Leviatã salvar-nos desta vez, estabelecendo a moral pública, o bem-estar social e uma cultura saudável. Reprimindo essa pouca-vergonha toda!
Revista Veja, edição -15.250, outubro de 1931
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Total e irrestrita
Você não pode liberar as drogas pela metade, como o governo anda discutindo. A proposta atual, de não condenar mais os pequenos traficantes, teria como resultado criar uma casta inteira de semibandidos inimputáveis, pessoas entre a lei e o crime e ainda assim acima da lei - soldados rasos que são o sonho de qualquer organização criminosa.O que aconteceria em Chicago dos anos 30 se, ao invés de acabar a Lei Seca, continuasse proibido fabricar cerveja mas qualquer um que fosse pego arrastando um engradado não fosse mais preso? Aumentaria ou diminuiria o lucro de quem fabrica? Seria mais fácil ou difícil distribuir? Ficaria a máfia mais ou menos poderosa?
Mesmo se estiver correta a tese nefelibata, e existe mesmo um abismo entre distribuidores e traficantes que pegam em armas, os pequenos continuariam a morrer por dívidas e não teriam como recorrer ao PROCON quando o fornecedor colocar coisas inadequadas em seu produto.
As facções do tráfico no Rio operam no varejo. Não são o que foi um Cartel de Medelin, uma organização voltada à exportação. Isso quer dizer que todo o traficante das favelas já é de certa forma pé-de-chinelo, um vapor, e não um Pablo Escobar. Também explica a irresponsabilidade deles, o fato de viverem em guerra constante, diferente da pax mafiosa que organizações melhor estabelecidas tentam manter - o domínio das facções do Rio dura pouco, as lideranças são pueris, morrem cedo ou comandam da cadeia, e nao há muita sofisticação nas operações exceto tomar locais, como num jogo de estratégia simplista. Dito de outra forma, o que há no Rio é muito dinheiro indo parar na mão de bandido simplório, sem estratégia e inexperiente.
Apesar da proposta atabalhoada de seu governo, a esquerda seria capaz de concordar comigo numa liberação total. Vamos analisar então a outra parte, os argumentos conservadores contra o fim da proibição das drogas:
1. Liberar as drogas não fará dos traficantes menos bandidos;
2. Liberar as drogas aumentará o consumo de drogas, causando um problema social pior que o tráfico;
3. Liberar as drogas não pode ser feito em um só país, transformaria o Brasil em um corredor de tráfico internacional.
Liberar as drogas não fará dos traficantes menos bandidos, mas tirará deles sua maior fonte de renda. Sem os lucros exorbitantes do tráfico, as facções diminuiriam em número e se tornariam mais discretas em suas ações. Ou alguém é mesmo capaz de imaginar uma guerra de gangues pela distribuição de botijoes de gás ou TV a cabo nos morros? Que o negócio de botijões de gás sustente a compra de mísseis Stinger?
A Lei Seca criou a máfia de Chicago e essa máfia desapareceu com o fim da Lei Seca. Parece um tanto óbvio que a máfia será mais poderosa quando qualquer um que queira tomar uma cerveja precise financiar a máfia para isso. Alguém poderia, e deve ter dito então: "amigo, sua cerveja está matando criancinhas". Se, seguindo essa lógica, as pessoas deixassem de beber, para sempre estaria sedimentada a tirania dos puritanos e toda a disputa se resolveria com esse tipo de lógica circular. Dizem hoje os conservadores: cheirar pó ou tomar E financia o tráfico, pois essas substâncias são proibidas e só podem ser obtidas de traficantes. Assim sendo, é moralmente errado usar drogas. Portanto, as drogas devem continuar proibidas - e continuar sustentando traficantes.
O segundo argumento tem força limitada. Se eu colocar uma pedra de crack na sua frente agora, você fuma? Por que não? E se for um vidro de benzina? Tomar uma cartela de Cataflan e ficar bêbado? Lamber um sapo? Dar um tapa no peito prendendo a respiração e desmaiar? Não?
Qualquer um pode cheirar cola de sapateiro, não é proibido por lei. Como você, careta, enxerga uma pessoa que faça isso? Pois usuários de heroína e crack já são párias, mesmo entre pessoas que fazem uso recreativo de drogas. Na Holanda aconteceu de a região designada para usuários de heroína virar uma espécie de cracolândia, um lugar proibitivo. Isso tem a ver com a natureza do consumo de heroína, assim como o de crack, que são drogas de "junkies", de quase mendigos, ligadas à degradação e auto-destruição.
Na época em que a maconha e cocaína foram proibidas, primeiro nos USA, eram drogas de negão pobre, dos "juke joints" e, racismo à parte, o estigma de degradação que tinham era similar ao do crack hoje. A cocaína inclusive foi, de 1914 a 1937, meio que liberada só para brancos. Durante os anos 20, assim, esteve ligada aos finórios e melindrosas que protagonizaram a prévia da revolução sexual. Em 1937, a proibição dessas drogas foi uma espécie de prêmio de consolação às tias carolas que perderam sua amada Lei Seca. Ao proibir as drogas, acreditavam estar proibindo a degradação social e moral - o que, para qualquer um que tenha visto um mendigo com uma garrafa, é no mínimo tolo.
Hoje em dia, muitos conservadores reconhecem que maconha é quase inofensiva. A favor de sua proibição eles trazem o argumento de que ela "leva a outras drogas". Seria por acaso porque, sendo proibida, a maconha leva ao traficante? Se a questão é que uma droga faz com que a pessoa tenha curiosidade por outra, a primeira e universal experiência de ficar "maluco", a droga que mais leva a outras drogas, chama-se álcool - você pode dizer que, entre usuários de crack, 89% usaram maconha antes, mas certamente 100% beberam antes. Nas festas onde se consomem drogas, há quem prefira não misturá-las, mas álcool é universal.
Nada que se aplica a outras drogas não pode ser aplicado ao álcool. O álcool não é uma droga leve, leve é cigarro ou o café. Ao volante, você pode confiar mais em alguém que tenha cheirado 1 grama de pó que quem tenha bebido uma garrafa de cerveja. Muitas mortes são causadas por consumo de álcool, mas proibir o álcool é, muito correta e adequadamente, considerado um abuso ao direito individual, um ato autoritário. E, ainda assim, muito asno que zurra ao ouvir falar em Lei Seca dá coices ao ouvir falar na liberação de outras drogas, incapaz de aceitar a semelhança. Temos, sim, como dizem, tradição em beber álcool, milênios convivendo com a droga - e de pouco adianta, bêbados irresponsáveis surgem todo o dia, na mesma proporção de sempre. É ver um sem-teto abraçado a uma garrafa de cachaça e saber que isso não é melhor que a cracolândia.
Por fim, existe o argumento do corredor de drogas, que o Brasil não pode liberar sozinho ou se tornaria um pária. Duvide-o-dó. Haveriam charges de cartunistas republicanos e debates irados no rádio e na Fox News, mas seríamos muito mais provavelmente considerados um exemplo. Com a condescendência para os exóticos, somos considerados corretos mesmo quando fazemos tudo errado, brincando de malabarista de granadas com Irã, Venezuela, Síria e Coréia. Liberar as drogas nos faria uma força de pressão para que os Estados Unidos façam a mesma coisa - e desta vez estaria o Brasil mobilizado por uma causa digna.
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